quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Relógio Biológico

Era uma casa bonita.
Ela não se lembrava da cor do portão, mas era uma casa bonita.
Ela se lembrava das árvores. Era uma rua calma, e se recordava das folhas em tom amarelo no chão, e de olhá-las enquanto esperava-o do outro lado da rua.
Do pequeno disparo no peito. De finalmente entender a expressão 'borboletas no estômago', 'frio na barriga'.
Sim, ela se lembrava das folhas no chão, e lembrava do cadarço sempre desamarrado do all star vermelho. De estralar os dedos com o esmalte azul descascado. De estar encostada no carro antigo do pai, olhando para o portão e para o chão, e novamente para o portão. Não queria perder um segundo de visão dele.
E lá estava ela de novo. Mesmo all star. Mesmas folhas. Mesmo esmalte azul.
Mesmo disparo no peito.
Mas, dessa vez era diferente. Aquele era o futuro, e ela tinha medo dele. E do futuro do futuro. No momento em que ele saísse daquele portão, seria diferente. Ele não atravessaria a rua com um sorriso no rosto e a beijaria.
E eles não caminhariam de mão dada até a praça próxima, rindo e felizes em se reencontrarem, e tristes por ser breve. Ela reclamando do cabelo curto. Eles deitados olhando para o céu nublado.
Depois dessas horas, tudo poderia acontecer. Apesar da probabilidade de ela voltar para essa mesma rua chorando, não conseguia conter a chama de esperança em seu coração. De conseguir aquela tarde de volta. O sorriso. O beijo. As mãos dadas.
Ela sente a brisa no rosto. A mesma brisa. Fecha os olhos, e gostaria de poder voltar no tempo. Voltar e fazer diferente. Voltar e dar certo.
Andava pensando muito no futuro. Será que naquela primeira vez, diante daquela casa, ela imaginaria que estaria de volta nessa outra situação? Talvez sim, mas foi boba o suficiente para não prever...
Ela gostaria de voltar no tempo.
Eram as mesmas folhas, o mesmo esmalte.
A mesma casa e o mesmo portão.
Mas nada era o mesmo.

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