Ela não se lembrava da cor do portão, mas era uma casa bonita.
Ela se lembrava das árvores. Era uma rua calma, e se recordava das folhas em tom amarelo no chão, e de olhá-las enquanto esperava-o do outro lado da rua.
Do pequeno disparo no peito. De finalmente entender a expressão 'borboletas no estômago', 'frio na barriga'.
Sim, ela se lembrava das folhas no chão, e lembrava do cadarço sempre desamarrado do all star vermelho. De estralar os dedos com o esmalte azul descascado. De estar encostada no carro antigo do pai, olhando para o portão e para o chão, e novamente para o portão. Não queria perder um segundo de visão dele.
E lá estava ela de novo. Mesmo all star. Mesmas folhas. Mesmo esmalte azul.
Mesmo disparo no peito.
Mas, dessa vez era diferente. Aquele era o futuro, e ela tinha medo dele. E do futuro do futuro. No momento em que ele saísse daquele portão, seria diferente. Ele não atravessaria a rua com um sorriso no rosto e a beijaria.
E eles não caminhariam de mão dada até a praça próxima, rindo e felizes em se reencontrarem, e tristes por ser breve. Ela reclamando do cabelo curto. Eles deitados olhando para o céu nublado.
Depois dessas horas, tudo poderia acontecer. Apesar da probabilidade de ela voltar para essa mesma rua chorando, não conseguia conter a chama de esperança em seu coração. De conseguir aquela tarde de volta. O sorriso. O beijo. As mãos dadas.
Ela sente a brisa no rosto. A mesma brisa. Fecha os olhos, e gostaria de poder voltar no tempo. Voltar e fazer diferente. Voltar e dar certo.
Andava pensando muito no futuro. Será que naquela primeira vez, diante daquela casa, ela imaginaria que estaria de volta nessa outra situação? Talvez sim, mas foi boba o suficiente para não prever...
Ela gostaria de voltar no tempo.
Eram as mesmas folhas, o mesmo esmalte.
A mesma casa e o mesmo portão.
Mas nada era o mesmo.
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